A Comissão Europeia adotou o aplicativo Element Pro durante o verão como uma alternativa de contingência ao Microsoft Teams, voltada para assegurar a continuidade da comunicação caso o serviço norte-americano fique fora do ar. Apesar da nova opção, o Microsoft Teams continua sendo a ferramenta padrão e principal de comunicação cotidiana dos servidores do órgão executivo da União Europeia.
Hospedagem própria e busca por soberania digital
Diferente do Microsoft Teams, que opera na nuvem gerenciada pela Microsoft em Redmond, o Element Pro roda hospedado nos servidores da própria infraestrutura da Comissão Europeia. O projeto tem como meta central diminuir a dependência de tecnologias dos Estados Unidos e garantir maior controle sobre dados estratégicos, reduzindo riscos operacionais para o bloco europeu.
O software é desenvolvido pela Element, empresa com sede em Londres, no Reino Unido. A aplicação utiliza o padrão aberto de mensagens Matrix e inclui recursos comerciais proprietários sobre essa estrutura.
Reação negativa em fóruns internos
A implementação da ferramenta como backup gerou forte reação negativa entre servidores em canais internos de discussão. Além de questionamentos sobre o propósito prático da solução, mensagens postadas no fórum descreveram a experiência com termos duros.
“eu não entendo o valor agregado disso aqui”Funcionário da Comissão Europeia1
“uma porcaria completa”Funcionário da Comissão Europeia1
Outro funcionário comentou que, considerando a disparidade entre o estágio de desenvolvimento atual do Element Pro e o Teams, os Estados Unidos venceriam a guerra de forma instantânea se decidissem suspender o fornecimento de tecnologia para a União Europeia.
Houve também manifestações favoráveis ao projeto nos canais da instituição. Um dos servidores defendeu a escolha do Element Pro por operar sob controle direto dos próprios servidores europeus, apontando que, no caso do Teams, existe apenas a garantia contratual de que a Microsoft não fará espionagem.
Posição dos envolvidos e planos de adoção
O diretor-executivo (CEO) da Element, Matthew Hodgson, admitiu que a plataforma enfrenta problemas iniciais de maturidade (teething issues) decorrentes do período de testes. Hodgson argumentou que qualquer processo de substituição de uma plataforma amplamente adotada como o Teams traz desconforto e encontra resistência natural dos usuários.
A diretriz de contingência segue as orientações de um memorando interno emitido pela própria Comissão Europeia em julho, que apontou a necessidade de reforçar a autonomia técnica para evitar bloqueios ou paralisações de rotina.
“Nos últimos meses, a soberania digital se tornou cada vez mais importante” No original, em inglês: “In recent months, digital sovereignty has become increasingly important” memorando interno de julho2
A Comissão Europeia não deu declarações públicas sobre as reclamações internas e não indicou qualquer recuo ou intenção de desistir dos testes com o Element Pro. Outras entidades internacionais de grande porte, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), também estão testando o programa da Element.
A iniciativa soma-se a outras ações de governos europeus para restringir softwares norte-americanos. A França estabeleceu a meta de transferir os servidores públicos do Teams, Zoom e outras soluções dos Estados Unidos para a ferramenta nacional Visio até 2027, enquanto as Forças Armadas da Áustria trocaram o pacote Microsoft Office pelo LibreOffice.